Eu, o vidro e a caixa

O propósito é a alma do cuidado

Wester Nishimura | Ziguezagueando |18/09/2025 às 23:05

Há pouco, imaginei que seria interessante tirar férias em Marte. Creio que, logo, mãos robóticas sobreviventes trarão conforto e viabilidade de estrelas nos aplicativos de reservas.

Dou graças pela ajuda analítica, desconectando-me dos meus delírios de fuga diante dos avessos diários pessoais e profissionais.

Às vezes, penso covarde em viagens astrais, levando tudo de uma vez.

Aterro-me na posição de lótus e deixo o universo agir.

No astral, na moral ou na cívica, viajar é bom demais.

O lúdico educa.

Deparei-me, esses dias, com álbuns do que já vivi no mundo e suspirei alentos, atenuando o arrebatamento. Saquei um álbum de uma viagem que fiz para a Itália e fiz como no livreto Minutos de Sabedoria: aleatoriamente, abri em Murano, uma ilha perto de Veneza, onde uma foto defronte a uma escultura gigante de vidro me colocou a pensar que dilemas pessoais e profissionais, sofridos por contraculturas, estavam sendo redundantes perdas de tempo.

Percorri nostalgias que se plugaram em uma tomada imaginária de conforto no presente. Contemplei as fotos do local, como quando vamos nos arrumar no espelho para a festa do nosso aniversário. As contraculturas do sistema que orbitam minha mente, spins atômicos caóticos, retrocederam momentaneamente nas fotos revisitadas por olhos mais astutos, calejados e precisando de alguns graus de presbiopia. Afinal, elas se viram. Sempre estiveram.

A foto, na escultura de vidro, tirada por achar bonita, já dizia muito sobre meus atuais desconfortos e sentimentos de fuga. Vi que ir para Marte poderia não ser o melhor caminho para encontrar respostas. Fiquei atônito com a devolutiva que álbuns de fotos faziam, naquele momento, comigo.

Quanto à foto na escultura, pela imaturidade focada em desempenhar outro papel, acho que postei no Instagram.

Lembro-me de que, quando abarroamos na ilha, fomos levados ao primeiro reduto de souvenirs de vidro. Um turista do grupo disse-me:
— Não compre aqui, porque é made in China.

Sabido e ressabido, pulei a etapa. Nunca imaginei, pelos olhos menos cansados, que provavelmente a escultura pudesse ser de lá também. Fui tomado por uma vergonha alheia renascentista de mim mesmo. Tomara que não haja mais essa foto no Instagram.

Lembro-me de que, logo, caímos nas fábricas do famoso vidro de Murano. Casas ainda da época de sua criação, em torno de 1291, com cunho de manufatura, onde contextualizei a “alma” do negócio e todo o mistério dos habitantes reclusos na ilha.

Descobri que era vontade dos reclusos fazer magia com sílica na ilha, transformando-a pelo fogo em portais transparentes, que, ali postos, evitavam incêndios que borrassem o glamour das nobres palafitas venezianas. Apesar de ser um conto de fadas pela metade, havia propósito em torno da arte.
— Propósito.

Senti brilhar uma memória de vidro sem teto, que eu nem sabia estar explícita em um álbum de fotos.

O cristallo, tingido em diversas cores vindas do Oriente, compunha um propósito, na época, de ilustrar beleza e higiene; facilidade de limpeza comparada aos utensílios rústicos de ares medievais.
— Bom, belo e verdadeiro.

Vi-me dentro da foto, refletido em espelho, ressignificando meu entendimento da alma: o vidro. Uma alma que, desde a Revolução Industrial, sobrevive de propósito. Dei nome ao gato — sino-usurpações — e fiquei com pena da lebre na ilha.

Fechei o álbum.

Um véu sucumbiu, amortizado pelos suaves verbos analíticos. Dormi com vergonha de mim, da escultura e de Marte.

No dia seguinte — memorizado no véu — quis entender um pouco mais, deslocando-me para outro lugar, visando revalidação.

Lembranças marroquinas.

Proponho seguirem viagem comigo em minhas memórias nestas fotos, para o desenlace revalidado.

Lembro-me do carrinho de hot-caramujo, como o nosso hot-dog, contudo nada metafórico. Repleto de gordinhos, como os que encontramos na ciclovia da Marginal Pinheiros. Cultura linda, que optei só por observar os transeuntes lamberem os beiços, deliciando-se dos habitantes fresquinhos dentro de suas “casinhas de dorso”.

Logo me lembrei de que fui alçado por um encantador de naja, sem dentes, ambos, que me cobrou 20 euros para tirar uma foto com a cobra. Paguei por medo.

Memórias.

No riad, chá de hortelã com bolachinhas de gengibre e, na cama, pétalas de rosas. As rosas eram para casais, porque só havia casais e eu. Os aplicativos de viagem às vezes locam viajantes errados em locais românticos. No dia, lembro-me das minhas circunstâncias no local e a cena parecia mais a do filme Beleza Americana. Afinal, Marrocos galga alguns aspectos sociais discutíveis. Como disse: — Viajar educa.

Entretanto, a foto da caixa que me saltou aos olhos foi onde tive clareza memorizada e revalidada. Demorei para achar a loja. Um destino fora da Medina, porque era a única com a tradição vinda dos mouros da região da Andaluzia. Arte geométrica de marquetar. Tomado por uma lembrança marchetada, tão frágil como a de vidro, perdi o chão e o teto de quão cego estava no dilema estabelecido.

Lembrei-me do senhor de djellaba verde-escura (roupa usada pelos homens), dizendo que muitas vinham da China e que a melhor estava fora de onde ela deveria estar. Sino-usurpações.
— Propósito.

A marchetaria remonta ao Egito Antigo. Ganhou corpo na região da Andaluzia com os mouros, com o propósito de beleza estruturada e proteção divina na geometria sagrada. A marcenaria marroquina marchetada brilha em micro e macro geometrias sagradas. Bonitas e perenes, algumas portas das casas na Medina de Marraquexe possuem 1000 anos, com esplendor de novas.

Tão antigas são as usurpações plagiadas. Roma ocupando e copiando as minúcias cheias de alma gregas é um exemplo. Sendo assim, as sino-usurpações não passam de contemporaneidade. Portanto, não é nada xenófobo, apenas fatos que falam com meus propósitos. Sinto-me historicamente respondido.

Reavivar memórias me trouxe contextualizações de um propósito que vinha se constituindo no meu inconsciente médico.

Trouxe, claramente, que peregrinar por aí sem a minha “casinha de dorso” foi onde pude ter contato com o multiverso do mundo.

O discernimento de que, onde se tem menos, usurpadores tiram mais do que o propósito, pelo poder de compra, jogando-os para fora do território sagrado.

Mostrou-me que passado, presente e futuro se unem em uma estreita faixa de eternidade ilustrada no propósito.

Distinguiu-me que os sentidos nas cores, texturas, sabores, sons e cheiros são arquivos de sabedoria e guias de todas as viagens.

Dessa forma, o cuidado com propósito ressoa com a alma. A Medicina Industrial usurpa a alma de quem cuida e de quem é cuidado. Uma violência silenciosa que atende apenas alguns no topo da pirâmide.

Álbum fechado, agradeci às pestanas grisalhas e deixei a vergonha da fuga na devida caixa de marchetaria do passado, em uma bela redoma de vidro muranês, para mim e para quem quiser ver. Porque é escondendo desconfortos que deixamos de nos cuidar da melhor forma.

O real propósito de cuidado médico está na tríade platoniana do vidro e da caixa, ou seja, no bom (corpo), belo (mente) e verdadeiro (espírito).

Marte está longe. Espero.

 

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