Glub

O "não" disfarçado de "sim"

Wester Nishimura | Ziguezagueando | 29/08/2025 às 17:29

Neste exato momento, refugiar-me-ia em 1984 dentro do croqui imaginário de George Orwell.

Diante da impossibilidade, vivo a quântica fluidez cinza do autor. Eu, você e tantos mais.

Não sei quem você é, mas sei que — não muito diferente de mim — somos vigiados pelo clone melhorado do Big Brother.

No laboratório do Big Data, juntos nos conformamos em baratas iludidas pelos destinos que já foram nossos — hoje quem os traça é o todo-poderoso cheio de senhas e de coisas.

Reduzidos a cascas duras, forjadas no desespero de sermos nós mesmos, nossos IPs já deixaram de ser 666 há muito tempo. Prontos e descaracterizados, para servir aos tubarões do sistema.

O zoomorfismo inverso e profano ilustra bem a nossa condição de meras sardinhas.

Creio que esta espécie é a melhor para sermos, porque durante um ataque de tubarões a “massa” do cardume se mantém mais coesa, apesar das baixas — diferentemente de uma foca.

Na iminência de uma guerra nuclear, pensei em sermos baratas, mas confesso que tenho um certo nojo.

Desta forma, sermos sardinhas é a melhor forma de sobreviver sem nojo.

Anteontem, eu, parte ínfima do cardume, caí na rede Droga Tartaruga.

Fui comprar um analgésico e saí anzolado pelo digital.

Como todo bom brasileiro, diante da oferta e um descontinho, forneci meu CPF, endereço, telefone — ingenuamente achei que era um alevino.

A moça disse um endereço de Campinas onde morei há 10 anos e rapidamente concluiu:

— Senhor, cadastro efetuado.

Nem me perguntou o novo endereço para não perder tempo. Afinal, hoje, com carbono zero, nada vem de papel — o que importa é o voraz digital, cheio de fome de você. Feito. Meus dados seguiram a maré, certamente concatenados ao meu plano Unifeliz que captará minha ida à mesma para contabilizar taticamente, no atacado ou no varejo, como cuidará da minha vida de sardinha no vencimento do mesmo.

Com recíprocos olhos de peixes mortos, dissemos:  

— Glub. Glub.

Claro, como a água da Marginal Pinheiros, logo fui saraivado com microgatilhos do ecossistema, na tormenta das mídias sociais, e-mails e — capivaras viram — até na telemídia do elevador do prédio.

Lá estava o analgésico cravado de descontos lucrativos que, em minutos, deu-me uma sensação de ineficácia na dor pelo conteúdo persuasivo da propaganda.

Deitei-me lendo feeds e me sentindo, de certa forma, food, quando apareceu a propaganda de desconto de um anti-inflamatório cheio de vantagens superiores às do analgésico.

Uma sardinha sendo adestrada por um robô, dizendo:

— Durma melhor, respire melhor e amanhã volte para rede, seu peixe.

Ontem, tive a certeza de ser uma sardinha sendo adestrada por um robô de Orwell.  

Pensando bem, uma sardinha enlatada em convênios médicos, academias, metrô e outras tantas latas.

Dei-me conta que estava refletindo demais e meu horário se esvaia. Afinal, acordo às 06:00h da manhã, sorrio ao espelho um sorriso desigual — e ainda bem que pelo menos meu creme dental é de hortelã.

Pimenta nos olhos dos outros é refresco, reflete um ego.

Olhos de peixes mortos não doem, rebate o outro.

Partiu: metrô.

Peço ao universo todos os dias para que, ao abrir esta lata, eu não caia no vão. Apesar que ali não tem ninguém.

Sinto saudades de quem um dia me fez ova nestes momentos.

Mas, se houver uma chupeta ou um reborn, talvez já me conforte.

Egos se alinham.

Possivelmente, ali, outros olhos de peixes mortos pensem o mesmo.

Às 18:00h, para arejar as guelras, aventurei-me a ir à academia “custo-benefício”.

Lotada ou “latada” de atum — ou seriam sardinhas saradas? 

Reflito:

— Ai que vontade de ser uma barata… ou quiçá a cadela Baleia.

Fico pouco, porque é implícito não ficar muito nessa lata, para que o cardume gire na saúde.

Enfim, cheguei no meu aquário de 40 m³.

Ainda me lembro do jargão da rêmora na imobiliária.

— Novo jeito de se morar em São Paulo.

Eu não tinha percebido que, nas entrelinhas, estava:

— Novo jeito sardinha de morar.

Acomodo-me na latinha e vejo que não havia sequer uma artêmia para comer.

Do iComida, recebo:

— Você ganhou um desconto de 30%. Use-o agora.

Pensei:

— Sou uma sardinha enlatada na rede recebendo mais um “sim” disfarçado de “não”.

Seria melhor comer barata frita?  

Olhos de peixe, ainda mais morto, não fecham.

Todo dia eu sempre faço, tudo sempre igual, crendo por mim, por você e por Pio que dessa rede do pescador de ilusão só sairemos em uma caixinha de fósforo. Depois que caímos na rede, é lata.

Lata — rede.

Rede — lata.

Portanto, a única coisa que ainda tenho é meu olho de peixe morto, com o qual posso — disfarçadamente — honrar meu príncipe cérebro, que ainda pensa “humano”.

Com ele, pelo menos, posso escolher os melhores “sins” disfarçados de “nãos”.

Glub!

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