A nova delinquência do meu bairro é o sequestro de cachorros. Filhos para uns, mas, para mim, inexoravelmente, gente. A cantiga do furto de celular já foi da roda, onde Quitérias e Ambrósios brincavam de bolinha de gude e eram felizes.
Eu não moro em um bairro suprassumo, apenas segui o modismo consciente arquetípico paulistano: aglomerar-se no imaginário de que pode ser um bairro seguro por metro quadrado. Meu “lodo” engano feudal falido.
Condôminos do prédio da frente, onde as sombras dos apartamentos esmagam meu aquário, possuem a maior ogiva imaginária do “lodo”. Criaram, subitamente, uma câmera da Ordem do Estado — claro — na calçada deles. Lembra-me mais uma namoradeira de janela milica, visto que os delitos pululam.
Contextualizados, voltemos à notícia.
Os coitadinhos, cheios de mimos, usam até sapatinhos de plástico descartável e, alguns, coleiras de marca da loja de pet do shopping. São as bolas de pêlo da vez no blindado coletivo Mundo de “Sofias”. Aquela do livro, pelo menos, escondia-se no jardim. Eles simplesmente dizem: — Au — e somem carregados de moto, espremidos entre os vis. Assim, a catástrofe familiar se instaura com os pedidos de resgate concatenados, diante dos olhos da namoradeira.
Sinto-me em uma obra de Dalí.
Com ou sem sapatinho, é o máximo da escalada perversa na barreira do bairro. Agora, com o rastreio modal de IMEI, melhor levarem nosso segundo companheiro dopamínico sem risco de localização. É a escalada da humanidade, porque quem sofre são as pessoas que latem.
Cachorros são cachorros. Não entendem de dopamina como nós, assaltados e assaltantes. Contudo, nem eles, nem nós deveríamos viver assim, entre um risco de infarto e o clímax de um orgasmo. Cadê o sabor do prazer? Porque é assim que muitas doenças reumáticas surgem, no embalo dos hormônios frenéticos.
Dei conta, de fato, de que o grito do momento eram os sequestros quando o Lulu da Pomerânia estridente da vizinha voltou da escolinha de mochila. Fui tomado por um delírio momentâneo, tentando me explicar os delitos no coletivo. Imaginei-me em um ônibus passando na marginal, ventilando horrores devido uma cratera aberta no vidro por uma bolinha de gude da época de Quitéria e de Ambrósio, que imagino passarem bem, a sete palmos, sem hormônios.
Eles: dopamina (banalidade) e cortisol (apreensão). Um ciclo circadiano às avessas que pede resgate na figura do pet com a simples palavra: socorro. Níveis desregulados de cortisol e de dopamina estão correlacionados à artrite reumatoide, ao lúpus, à osteoporose e a outras doenças reumáticas de desfecho tardio e doloroso, além de doenças de desfecho fatal, como as cardiovasculares.
Portanto, eu acho que está na hora de chamar a Sofia para ensinar como se esconder no jardim do condomínio. O poeta dizia que era para cuidar dos nossos, que as borboletas apareceriam. Será que hoje contextualizariam os cenários em jardins ou estufas? Atualmente, a borboleta vem voando de moto, capacete e asas rosa neon quadradas.
Vão-se os sapatinhos, os pêlos e, se duvidar, os dedos reumatoides.