Morfina

É preciso titular a dose

Wester Nishimura | Reumatologista | 06/09/2025 às 07:05

É um grande rally falar de algo técnico no tratamento da dor, sem trilhar o árido do sintoma. É como tentar acalmar uma criança com sede e com sono. Vou começar falando como manda o figurino.

Médicos que lidam com dor são sedentos por novidades. Quando surge alguma molécula nova de enfrentamento, é como uma gota d’água no deserto do Saara.

Numa pesquisa rápida, encontrei algumas moléculas com tecnologias interessantes para tratamento da dor, que hoje vou chamá-la de “Boi da Cara Preta”.

A primeira, aprovada nos Estados Unidos da América pelo FDA (Food and Drug Administration), é a suzetrigina, indicada para dor moderada e grave em pós-operatório e pós-traumatismo. Um analgésico não opioide — temporal às políticas de Trump?

A segunda é a vipoglanstat, ainda não aprovada para uso em humanos, com ação na mPGES-1 (prostaglandina E sintase 1), pós-COX (cicloxigenase – uma via de inflamação), indicada para fenômeno de Raynaud da esclerose sistêmica e possivelmente em dor relacionada à endometriose.

Vou pausar a apresentação do elenco para relembrar um dado histórico dos inibidores da COX, porque não quero voltar a esta secura da contextualização. O rofecoxibe, lançado em 1999 e retirado do mercado em 2004, devido a casos de doença coronariana grave em torno de 88.000 a 140.000 pessoas, dos quais se estimam 30.000 mortes decorrentes do mesmo, na terra do Trump.

Voltemos ao enredo do elenco.

A terceira, em fase final de aprovação, é a dapansutrila, um inibidor seletivo do inflamassoma NLRP3 (plataforma multiproteica do sistema imune inato), indicada para crise aguda de gota.

A quarta, ainda não aprovada, é a DFV890 (sem nome comercial), para osteoartrite de joelhos (artrose) e com mesmo mecanismo de ação da anterior.

— Boi, boi, boi, boi da Cara Preta. Pega esse menino que tem medo de careta.

— Passôooo.

Será que todas essas drogas realmente matam a nossa sede? Progressivamente, penso que estamos indo direto ao olho do buraco negro do sintoma.

— Boi, boi, boi, boi da Cara Preta. Pega esse menino que tem medo de careta.

— Passôooo.

— Ai que sono.

Na Medicina Milenar Chinesa o processo inflamatório não é visto como uma praga a exterminar. É visto como uma vitalidade do corpo, e a função de quem cuida é apenas dar suporte para que o organismo combata o processo e o expulse. O ato médico é a jusante, no sentido horário do processo do corpo — e isso tem uma lógica, comparado ao vórtice antifisiológico dos anti-COX ou fármacos que, dependendo da dose, agem como Baygon numa barata.

— Boi, boi, boi, boi da Cara Preta. Pega esse menino que tem medo de careta.

— Passôooo.

— Ai que sono.

Vejamos outra situação do nosso cotidiano que visa à erradicação de algo que está em outro lugar.

Eu não contesto os benefícios, dados científicos e vidas prolongadas, mas penso que o cuidado da obesidade não está em único lugar. Nós, cuidadores, acessamos um. O paciente que sofre de obesidade sedimenta o sintoma noutro, impenetrável ao bisturi.

Antifisiologicamente, cortamos de alguma forma o cordão umbilical do desejo que, inanido, pode pesar mais que 130 kg. Não posso imaginar a dor do peso em ter 130 kg, mas posso conspirar que os panículos adiposos não deveriam ser vistos como pragas a serem aparadas de súbito. A engrenagem do bisturi ao vórtice do desejo a jusante seria a utopia do cuidado.

— Boi, boi, boi, boi da Cara Preta. Pega esse menino que tem medo de careta.

— Passôooo.

— Ai que sono.

Eu não vou me alongar muito em tantas outras situações ocidentais retrógradas e pautadas no corpo. Os meus devaneios não são uma crítica à pesquisa e ao desenvolvimento, porque muitos vieram a jusante na curva do buraco negro do desconhecimento. É que às vezes fico com sono de imaginar que a Medicina insiste em nos cantarolar cantigas de ninar macabras.

Eu até entendo o contexto histórico de ninar com o Boi da Cara Preta, “educação” arquetípica do medo e tudo mais que o excesso de zelo pode trazer de bom e de ruim. Contudo, recuso-me a aceitar que um Boi da Cara Preta é capaz de fazer um menino, que arranha o mínimo da semântica do sistema, dormir.

— Boi, boi, boi, boi da Cara Preta. Pega esse menino que tem medo de careta.

— Ai que medo.

Penso que o sentimento é “Maria vai com as outras” (do desejo).

Alguns bebês preferem ainda hibernar na vocalização do afago materno, dessemantizados no significado da Cara Preta e, confusos, encontram conforto em Morfeu. Penso que assim, nesta dualidade cognitiva, ela fica difícil de ser nomeada. Então, é melhor dormir para ser a jusante, prato cheio para o sistema da COX e do fio absorvível de sutura.

Longe de estar no topo do Todo, mas compondo um micrótomo de despertos na secura, percebo que ela não tem só Cara Preta: é mimética e se maquia com a cor que o sentimento impõe. Traço narcísico, às vezes necessário.

Assim, o desejo não é uma barata. Ela existe e está lá. Para matar a barata, você pode dedetizar tudo, o que não acho muito inteligente, porque ela serve de comida para escorpião; ou armar algumas iscas fisiológicas estratégicas.

Se não conseguirmos ver sua complexidade, penso que é melhor dormirmos na cantiga “dessemântica” de ninar.

— Ai que sede.

 

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