Eu ainda me lembro que, para adquirir uma linha telefônica no passado, pagava-se um valor considerável e em alguns períodos havia fila para se conseguir uma linha. Quando íamos fazer uma ligação interurbana, para algumas localizações do Brasil, tínhamos que entrar em contato com uma telefonista e ela conectava as pessoas para fluir a conversa. Sinceramente, nunca imaginei que estaríamos tão absurdamente conectados como estamos hoje. O exponencial comunicativo nos últimos tempos é algo incomparável na história. No entanto, seria a tecnologia atual das multimídias o fim do incessante comunicar?
O primeiro método de comunicação à distância em tempo real criado pelo homem foi o telégrafo. Samuel Thomas von Sömmering (1809) criaria a tecnologia que conectava os pensamentos em incríveis trinta minutos de atraso para curtas distâncias e para longas, nos intermináveis um a dois dias, sob a perspectiva “instagramável” contemporânea. Não demoraria muito a descoberta do telefone, por Alexander Graham Bell (1876), onde a curva tempo e espaço se cruzariam pela primeira vez.
A saga de estar presente na vida alheia de qualquer lugar, culminaria com a criação do telefone portátil por Martin Cooper (1973), popularmente conhecido como telefone celular. Contudo, o salto quântico sociável viria com a criação do smartphone por Frank Canova (1994) e se revolucionaria por Steve Jobs (2007), expressando o clímax do desejo eloquente. Como se sabe, na visão do desejo de Jacques Lacan (1901-1981), veríamos que isso nunca terminaria.
Logo, depois do advento dos telégrafos, não importaria o meio pelo qual nos comunicaríamos, mas como captaríamos a semântica educativa destes cenários tecnológicos e milimetricamente frívolos. A qualidade comunicativa, feita através da palavra escrita e imortalizada nos papiros e pergaminhos, configurar-se-ia em emojis e passaríamos a confrontar a primeira forma de comunicação universal: a escrita cuneiforme.
A essa altura, você deve estar pensando, o que este artigo de história da comunicação tem a ver com a minha dor? Eu vou lhe explicar.
Se a dor é sintoma e sentimento, ela precisa se significar por algum canal de expressão. Assim, a díade dor, manifesta-se por ideias, pensamentos e ações, criando um cenário linguístico individual, mas totalmente permeado pelo contexto histórico de quem fala.
A dor falou por papiros, pergaminhos, telégrafos, telefones, telefones celulares e continua falando por smartphones e todas as multimídias que conhecemos, todavia na velocidade equiparada à luz. Nós mal formulamos um diálogo com a mesma e simultaneamente ela se reconfigura como um camaleão em outros questionamentos e repostas, absolutamente voltados para o único objeto: você.
Se não há escrita, a fala padece. Se a fala padece, o pensamento distorce. Uma sequência inexorável na piora da dor. Um looping eterno de configuração de um pedestal para que a dor reine e somente você será capaz de coroá-la ou destroná-la.
Não importa se por carta, código Morse ou ondas eletromagnéticas, a dor performará conforme seu entendimento a respeito dela. É um eterno aprendizado de si, ou seja, precisamos adequar o modo de consumo das informações didáticas frente à avalanche de dados verdadeiros ou falsos, duais e de acordo com aquilo que as sustentam: sintoma e sentimento. É fácil? Claro que não. Contudo, o autoconhecimento pode ser uma estratégia no discernimento do que a alimenta, ou seja, seus pensamentos.
Um grande exemplo de infodemia (excesso de informações verdadeiras e falsas) aconteceu durante a pandemia da COVID-19. A revista de alto valor científico The Lancet of Rheumatology (2021) avaliou a catástrofe informativa dada aos pacientes reumáticos neste período obscuro, onde não se conhecia muito bem o comportamento do vírus. Diante do fato, fica claro que na vigência de não sabemos algo na essência, é melhor nos calarmos para qualquer tomada de decisão, mas sabemos que houve um impulso informativo alavancado na inquietude da multimídia. Ainda mais em um cenário no qual vivemos, onde alguns desentulharam o papel do quinino da Gripe Espanhola (1918) e o empilharam na figura da cloroquina para COVID-19, simplesmente por serem semelhantes farmacologicamente. Um retrocesso científico, emocionalmente alicerçado em desespero e absolutamente empírico. Um achismo disseminado, impossível de deter frente aos milionésimos de segundos de um post em rede social. Desinformação consumada.
No entanto, não podemos nos enganar que as mídias foram fontes apenas na época da pandemia. A procura de informações nas redes sociais sobre cuidados médicos e apoio psicológico diante dos flagelos é prévia e recebe o reforço com a vinda da inteligência artificial, que atua como uma faca de dois gumes para quem sofre de doença crônica, como as reumáticas. Sendo assim, um estudo em pacientes fibromialgicas feito em 2018 ilustra um agravo das dores nestas em grupos do Facebook, onde o assunto eleito era dor. Ora, se cada um percebe e lida de formas diferentes com a sua, tentar entender no outro algo tão reservado na cognição álgica só poderia ter tido este desfecho. Infotoxicação sem antídoto diante de lamentações infindáveis. Sugiro a vocês se excluírem caso estejam.
Outro estudo de 2024 apresenta o contraponto, quando as redes sociais bem orientadas por profissionais capacitados podem ser salutares. Neste estudo, os assuntos permeados em educação médica do paciente, baseada em atualizações científicas, foram positivos, ou seja, filtros devem ser utilizados para haver discernimento do que é verdadeiro ou falso e, com isso, os pensamentos perdem força no poder do conflito.
As tecnologias são muito bem-vindas na medida que sabemos usá-las. O bom e velho bom senso pode ser a carteirinha de vacinação diante do anseio eterno no querer se comunicar. A leitura que concatena a fala, nunca deve ser extinta e de preferência em fontes de validação científica, que mesmo assim devem ter o crivo do seu reumatologista. Nós estamos na era reducionista da linguagem falada e escrita, inflamadas pela abolição do convívio social. A pandemia da COVID-19 chancelou com chaves de ouro o isolamento entre nós. Em breve, penso que este reducionismo da fala e da escrita nos isolará onde os aparelhos ainda menos tolhem, ou seja, nossos pensamentos, os quais muitas vezes negligenciamos por falta de tempo no autoconhecimento.
Portanto, ainda temos tempo de conservá-los como nossa propriedade e nomeá-los sob a luz do nosso desejo. Caso contrário, abarrotando-os de pixels o caos irá se instalar e seremos eternamente escravos daquilo que dói. Por fim, deixo uma breve reflexão para você: estarás pronto para falar da sua dor por telepatia?