A dor é uma dualidade intrínseca, individual e mitigada
Wester Nishimura | Ziguezagueando | 28/07/2025 às 00:35
Eu imagino que todos, em algum momento, já vivenciaram de alguma forma a dor. O assunto é e sempre será questionado, porque dor é algo que não se delimita no anatomofisiológico. É um sintoma, mas, ao mesmo tempo, um sentimento. Entrelaçam-se em um. Sendo assim, conteúdo ilimitado para pensar.
A minha dor é a minha dor.
Sua dor é a sua dor.
Deste modo, na individualidade, a dor é um ponto final na existência de cada um.
Um dia desses, questionei-me, como especialista neste sintoma, sobre a clareza da dor alheia na minha clínica, afinal, a linguagem falada sobre dor apresenta alguns lapsos cognitivos. Coloquei-me a pensar se a fala é o melhor lugar para explorarmos no outro o melhor caminho de acolher algo tão intrínseco.
Sendo assim, resolvi trazer aqui o assunto para refletirmos, inserindo-nos na arte de cuidar e me eximindo de conceituações mitigadas no corpo e na psiquê. Apenas trago formas de expressão dela, para podermos ter um preâmbulo de sua existência em nós e no mundo em que existimos. As palavras, formas e cores ressoam bem com o sintoma/sentimento e, para ser breve, exemplifico com quatro grandes leituras de dor. Peço-lhes que apenas abram os sentidos.
Então, vamos às letras:
Começo com Luís Vaz de Camões (1524-1580). Classicismo, restrito às formas e ao rigor sonoro da estética. A Europa transitava da Idade das Trevas para a Renascença. Aspirava-se ao novo nas grandes navegações e descobrimentos. Aqui estava, um soldado sem grandes posses, exilado, náufrago sobrevivente e um dos maiores nomes da literatura portuguesa. Ele disse:
“Amor é fogo que arde sem se ver,
é ferida que dói, e não se sente;
é um contentamento descontente;
é dor que desatina sem doer.”
Sigo com um dos grandes nomes da nossa literatura pós-modernista. Caio Fernando Abreu (1948-1996). Viveu a época da ditadura militar. No gélido exílio e na homossexualidade estigmatizada pelo diagnóstico de HIV e suas fluidas inseguranças no agora e no existir, forjou-se este grande soldado da nossa literatura. Ele trouxe:
“Olhe, não fique assim não, vai passar. Eu sei que dói. É horrível. Eu sei que parece que você não vai aguentar, mas aguenta. Sei que parece que vai explodir, mas não explode. Sei que dá vontade de abrir um zíper nas costas e sair do corpo porque dentro da gente, nesse momento, não é um bom lugar para se estar. Dor é assim mesmo, arde, depois passa. Que bom. Aliás, a vida é assim: arde, depois passa.”
Diante das letras, um minuto de silêncio com os olhos fechados, deixem as palavras ressoarem na mente para significarem o sintoma/sentimento.
Abram os olhos e vamos às cores e formas:
O pintor francês que os reumatologistas sempre enaltecem é Pierre-Auguste Renoir (1841-1919). O artista viveu o período da Primeira Guerra Mundial, que de certa forma foi uma alavanca conjunta de suspiro em sua obra. Grande expoente do Impressionismo, performou através de seus pincéis adaptados em órteses pelo flagelo da doença, ressignificando seu ponto final. A luz como diretriz na estética da pintura e suas pinceladas sentimentais, alicerçadas nos três grandes pilares platonianos bonum, pulchrum e verum (bom, belo e verdadeiro), o fizeram lidar com a artrite reumatoide e o vazio terapêutico da época. Em Les Grandes Baigneuses (The Large Bathers), pintada entre 1884 e 1887, sua doença já tinha alcançado o auge das deformidades articulares. Contudo, vejam a delicadeza das pinceladas e o predomínio da luz:
O pintor francês que os reumatologistas sempre enaltecem é Pierre-Auguste Renoir (1841-1919). O artista viveu o período da Primeira Guerra Mundial, que de certa forma foi uma alavanca conjunta de suspiro em sua obra. Grande expoente do Impressionismo, performou através de seus pincéis adaptados em órteses pelo flagelo da doença, ressignificando seu ponto final. A luz como diretriz na estética da pintura e suas pinceladas sentimentais, alicerçadas nos três grandes pilares platonianos bonum, pulchrum e verum (bom, belo e verdadeiro), o fizeram lidar com a artrite reumatoide e o vazio terapêutico da época. Em, Les Grandes Baigneuses (The Large Bathers), pintada entre 1884 e 1887, sua doença já tinha alcançado o auge das deformidades articulares. Contudo, vejam a delicadeza das pinceladas e o predomínio da luz:
O contraponto. Edvard Munch (1863-1944), o pintor norueguês. A penumbra da Primeira Guerra Mundial, o avanço capitalista, a maquinaria industrial e a ansiedade do coletivo nas mudanças tecnológicas se traduzem no Expressionismo. A distorção do interno e externo, subjetividade e emoção acima da forma marcam a obra do artista, que chegou ao êxtase no campo sutil devido a flagelos em “desordens” mentais. Órfão de mãe aos cinco anos e com um pai religioso extremista, esculpiram um artista ímpar, que traduziu suas questões psiquiátricas em expressão artística de valor inigualável. A célebre obra Skrik, 1893, conhecida mundialmente como O grito da Natureza, é em suma o torpor abafado do estridor vocal de uma linguagem nula em um mundo reto, que se expande nas pinceladas de cores e formas duais e densas. Sufocante de ver, mas que de certa forma, assim como Renoir, fala ao mundo sobre sua existência e assim nos faz compreender nos tons e talhes, o que o sutil distorce. Vejam a dualidade nas formas retas da ponte e a natureza caótica ao fundo, onde o som da psiquê explode na plasticidade da época:
Portanto, chegando quase ao final desta reflexão, trago meu ponto de vista sobre a dor e como deveríamos individualizá-la. São tantas as variáveis trazidas aqui, mas sem dúvida uma deveria ser ponto de atenção dos profissionais que acolhem esta conjunção sintoma/sentimento, a contextualização histórica de quem fala. Ela é o mapa do tesouro ou simplesmente a “linguagem simbólica” da época de expressão artística, que dá ou não liberdade ao eu poético. As formas clássicas prestes a explodir em luz na estética de Camões e Renoir sublimam a dor. No entanto, quando a época dá a permissão do micro e o macrocosmo do indivíduo se conectarem através do eu artístico, não há voz ceifada por uma ditadura ou pensamento desconexo psiquiátrico que não se faça gritar na pluralidade da linguagem, ou seja, não basta haver luz, tem que haver sombra para se construir veios cognitivos. Assim, você (individuus = aquilo que não pode ser dividido) é a sincronia do sintoma/sentimento e deve ser, se possível, acolhido assim.
Agora, vejam abaixo uma paródia do quadro de Munch, enviem-me uma mensagem no WhatsApp me contando como é sua dor na atualidade, baseada na imagem e na conectividade de seus mundos. Deixe-me saber.